Arquivo para carta missivismo epistolar

Estrias

Marido Rico de Moraes dice: são demais os perigos desta vida para quem tem paixão.

Prudença dice: paixão não é aquele óleo amêndoas?

The Scientist Writes A Letter

Dear,
Unless chance finds us face to face again, this
is the last you’ll hear from me. I spent this Sunday,
a long afternoon, freezing at my friend’s house by
the sea. We men of science… you know. I’ve returned
to my research in magnetic fields. It’s funny how attractive
indifference can be. My sense of failure… it’s not so
important. Electricity means so much more to me. We men
of science… you know…
It’s snowing again, seems like it’s always snowing. Sit
down to write and it’s so cold. Outside my window, there’s
a tree so white I can hardly look at it.
It’s quiet here. I look thru my glass at patterns
all so well defined. Please send my winter coat soon as you can
…I find I have no other lines… we men of science… you know…
all the best.. all the best, dear

Tom Verlaine.

PLANTÃO ALFAJOR

Bruiú, tu taí? Cortázar, cadê a Bruiú? Lamborghini, cadê a Buiú? Pizarnik, cadê a Buiú?

Cadê, porra, cadê?

Buenos aires, devolva a Bruiú.

Cheia de praça

Tem dias que eu to super otimista pro amor e hoje é um deles. Aliás, eu acabei de dizer ao Caco que ia começar um texto com essas frases e ele devolveu um sorriso de “Taca o pau”. Bom, aí eu fiquei me lembrando da agonia que foi obturar a Linha Vermelha com uma britadeira simplesmente porque eu ia te ver: meu coração quicava. O carro era um popular, e no painel 80, oitenta e cinco. Eu não corria demais como o Roberto em 67, mas achava que seria um charme dizer isso. E eu levava uns cedês novos pra te mostrar, umas coisas que eu queria que você ouvisse. Tem sons que a gente não compartilha com ninguém, e que só serve pra ouvir sozinho. Não sei os outros, mas tem certas músicas que eu sempre vou fazer questão de ouvir sozinha porque com outra pessoa não funciona. E embora em alguma hora eu mande uma ou outra por e-mail pros amigos que eu sei que vão compartilhar do maravilhamento, antes eu a esgoto até o último loop de winamp.

Em cada quadro de montanha o sol projetava nosso filme, e curiosamente, na altura de Las Cajas, cenas de mim quando criança nos seus olhos enquanto futucava minhas antigas fotografias. Acho que foi nesse dia também que eu contava do meu livro e até mostrei uma lista de personagens que eu pretendia botar pra viver em alguns capítulos, mas no final morreriam todos. Você tava aqui, no sofá bebendo chá gelado com biscoito de Petrópolis. Era Carnaval, a casa tinha viajado, e você veio prá se esconder uns dias comigo. Foi nesse final de tarde também que a gente combinou que ia dar certo e que, porra, dessa vez não teria tanto mais-mais e ah, pra quê ficar pensando nessas coisas agora? Calculei que eu ia chegar antes presse encontro porque você sempre se atrasa. Mas hoje eu adoro até a sua falta de pressa. A felicidade vai desabar sobre os homens, vai, desabar sobre os homens, vai?

Perto de Junho

Sábado chope debaixo da lua das Laranjeiras mais pra Cosme Velho que pra Largo do Machado, de onde saí a pé com Róbsu pra calibrar três pra festa no apê na rua ao lado amigo aniversariava. Pessoas conhecidas, birita com gelo no tanque, pães de queijo pastéis pasta de mostarda com queijo minas na vitrola e alguém sendo feliz com Outra Vez pela terceira vez nessa mesma noite. É disso que o velho gosta é isso que o velho quer. Pausa pra recuperar as energias e largar a água no quartão, o maior banheiro do mundo. Três gatos pela casa, que estava cheia, e a gente fazia o auê na cozinha. Mais pessoas conhecidas e o lugar vai ficando insuportavelmente repleto de pessoas conhecidas. Mas ó, curti.

Acordo com ducha gelada e vou tomar um telefonema que me promete carona pra casa mais exatamente da avó para um almoço de domingo ao qual jurei comparecer desde o domingo de páscoa. Róbsu dorme um sono encomendado. Evito ruídos, dobro a cama e saio do banheiro. Viro a roupa do avesso pra dar um new, checo o espelho e na minha boca provo um gosto de fogueira que apagou com água de poço. Desço a escada e vou pisando as ruas do Flamengo pra ir tomar café com o Getúlio Vargas no museu, que eu não sabia se zoológico, mas é que muitas crianças, mas é que hoje é domingo. Tão lhindas, tão lhindo.

Volto com calma e gosto de café. Minha carona enrola e isso faz com que eu trombe num sebo. Por aqui há muitos. E muito bons. Me enfio no lugar, onde há um tempo comprei um Miramar, e vou buscar poesia. Saio da estante com Rilke e Mário. Bate uma dúvida e resolvo conferir se ali havia algum exemplar perdido do livro que prometi a Róbsu no dia anterior. Pro meu susto e prazer: dois. Terceiras edições. Juntei um no saldo, o outro escondi para ir lá buscar depois para alguém que mereça.

O do Róbsu meti num papel que me deram azul, de um azul vergonhoso. Me arranjaram também uma etiqueta com bordados dourados de FELICIDADE, mas na hora de colar acabei esquecendo. Fechei o troço com duréquis e larguei na mão do porteiro junto com um bilhete, a quarenta e cinco passos da esquina da rua. Sábado chope debaixo da lua das Laranjeiras mais pra Cosme Velho que pra Largo do Machado, repito, havia prometido esse livro a Róbsu. E foi puta conhecidência. Mandei brasa e fiquei feliz. Presentear amigos queridos é mais que boa ação, dá um brilho no olho.

Carona chegou na hora exata do atraso que calculei. O almoço me esperava e de quebra a tia me enfiou debaixo do braço o Paixão Pagu, sobre o qual meses atrás, Róbsu havia avisado. Passei o dia inteiro rindo da cara do Oswald e sentindo tua falta. Queria rir contigo e contar as coisas, mas você não vai chegar. Acho que esta carta é boa oportunidade. A Patsy Galvão me tirou umas lagrimotas, mas nada grave, e acabou fuçando algumas revoltas esquecidas. Iron Maiden, aquela mulher era. E acho que há mais por vir, guardei um resto de livro pra amanhã.

Cada dia mais gosto de escrever cartas. É tão gratificante. Até pinta um cansaço, e por isso acho que vou tomar um banho e mais um café. Dessa vez sem a presença ilustre de Getúlio, e veja que ironia eu ter estado com ele e depois cair no livro que caí. Pretendo voltar pra ouvir o último disco da Madeleine Peyroux que eu baixei depois de meses de recomendado. Já ouvi uma música, um bolinho gostoso. Qualquer engasgo, vou beber na Billie. Bem próximas as vozes, não? Não quero achar que seja intencional. E claro, terminar de escrever só mais essa folha.

Enquanto isso abra o beijo em anexo.

Exercício

Querida, tua carta aos Correios às dez da manhã. Sabe, nossa distância tem me doído muito. Jamais imaginei. Não há remédio que sossegue minha ansiedade, o dia precisa cumprir 24 horas de trabalho, mas às 12h já começo a esfriar. Há pouco ânimo. Tenho me desinteressado das minhas canetas e dos meus papéis. Afastei-me de tudo para me dar ao luxo de pensar somente em ti. Às vezes me perco lá longe e é preciso refrescar o rosto com água corrente e esquentar com alguma cachaça. Três cigarros e mais algumas piscadelas durmo. Estou longe da cidade, e para ir a Redação e voltar, passo quase quatro horas dentro de conduções. Ler não é possível. Como eu, outros quarenta se espremem. E ler em pé, com pessoas ao redor esmagando a dignidade umas das outras entre bolsas e sacolas, não é muito confortável. E há os engarrafamentos, que me fazem demorar mais ainda. Logo, tenho que sair bem temprano. Durmo tarde e acordo bastante cedo com um sono que me consome as vistas. Até às 11 horas não sou ninguém. Sofri evoluções, já faço algumas revisões nos textos dos colegas. O que gera desconforto, podes imaginar, porque sou novato. Mas começo a me sentir mais à vontade, e presumo que daqui a alguns meses poderei vir ao trabalho em trajes de banho. O dinheiro, no entanto, continua curto. O pouco que entra invisto em dicionários. Faço pedidos no sebo do Ouvidor, mas dicionários andam caros. Preciso anotar: procurar enciclopédias. Voltemos a falar de nós, o assunto em alta. Ah, sim, antes preciso dizer que enviei um conto àquela revista, mas duvido muito que publiquem. Sabes, há uma implicância com a minha literatura. Recuso-me a sentar em panelas. Mais dia menos dia, os que estão lá saem todos correndo com os rabos queimados. E o que sobra é nada. Queimaduras, talvez. São medíocres, uns vermes. Nenhuma cultura. Só mais uma coisa: outro dia recebi uma carta do Gomes, aquele meu amigo de Minas. Ele informou estar para casar-se. Respondi enviando votos de felicidade, mas confesso que não foram dos meus mais sinceros votos. A moça escolhida é umazinha que bem sei. Não imagine coisas. Nada tenho que ver com essa história. Eu sei o que me chegou aos ouvidos da época que fomos vizinhos. Pode ser mentira, também, palavras de alguma boca grande. Mas pé atrás. Pois bem, saudade me aperta o cinto das calças. Andam frouxas, tua falta me levou alguns quilos. Não estou enfezado, estou até mais bonito. Das montanhas das minhas bochechas, agora aparecem duas covas bem cavadas. Mas de fúnebre só mesmo essa imagem. Meu coração anda em flores e distribuo sorrisos aos que me cercam e aos que confio, coisa que não andava fazendo antes de ti. Não posso mais escrever nesse momento, tenho que remendar umas folhas pra ver se consigo escrever o que preste ao meu pai. Ele sente minha falta e reclama por notícias. E depois tenho que me deitar. Me espera o engarrafamento e a distância da Redação. E às dez, novamente, tua carta aos Correios. Envio beijos, localize-os por aí e sinta-se abraçada. Com amor.

”sabe bala zunindo
e soldado lendo
carta de amor
na trincheira
zzzzzzpiiiiiiiiiiiiiiiuuuu?

sou eu.”