Arquivo para Novembro, 2006
Não vá pra cama sem ele
A TV Cultura transmite hoje, à s 23h40, o documentário “Vida de Músico”, de Pedro Vieira, sobre o Duprat.
Detalhes
Ouvi o disco de estréia da brit Lily Allen: Alright, Still.
Ficha: 21 anos, filha do Keith Allen, gatinha e bombando as poplistas das mais tocadas e das mais polêmicas.
Mas ela tem sua graça.
Começou, como todos nós, mostrando suas músicas no próprio site
e no Myspace há um tempo. Colou. A Internet e o dom da
multiplicação. Jesus ficaria orgulhoso se estivesse vivo.
“Smile” já é hit há um, dois meses?
Não sei, sei que o disco não é nenhuma pérola, mas é agradável e tem suas peculiaridades. Como por exemplo “Everything’s just wonderful”, que poderia facilmente ser uma bossinha. Ouve e me diz se a intro e o refrão não é de bossa nova!
Quer dizer, não ouve não, ouve “Littlest things”, faixa que motivou este post. Chicletinho! Não consigo parar de ouvir. Até o Sr. Gosminha caiu de amores.
Por trás de toda a R&Bzice da música tem um piano formidable e um corinho delicado e sutil.
E o refrão? Tão melódico.
Ficou curioso, né? Subi aqui pra você baixar e matar.
Charme
por Bartolomeu Sarjeta, outono de 2005
O primeiro livro que eu roubei na vida foi o Serafim Ponte Grande, do Oswald de Andrade. Roubei de um sebo em Copacabana. Um sebo até bastante conhecido, mas muito mal freqüentado. A começar pelo dono, que é um boçal completo. Confunde poesia com ficção cientÃfica. Eu não havia roubado livro antes. Já tinha saqueado um da biblioteca da escola com um amigo meu. Estávamos um dia pesquisando para um trabalho de grupo sobre LuÃs de Camões e querÃamos uma foto bonita e colorida pra colar na capa. Não querÃamos uma fotocópia pretibranca. Então arrancamos uma ilustração linda duma Barsa que tava dando sopa na nossa frente. E deu outro visual. Que mané, o cara, não sabe tratar bem seus novos clientes. Ele podia se informar, pelo menos. Me senti ameaçado, qualquer descuido faz com que eu me sinta ameaçado. Eu estava sendo mal atendido por uma pessoa que vendia livros, mas os desconhecia. Achei desacato. E oportunamente me vinguei.
Quando eu era criança minha mãe me perfumava com alfazema. E era um cheiro tão forte que se espalhava pela casa. Nossa casa não era muito grande, era um doisquartos-sala-cozinha-banheiro mais o anexo. Só tÃnhamos uma tevê, logo, quem não concordasse com o canal tinha que arrumar outra coisa pra fazer. E normalmente era eu quem tinha que ter esse trabalho. Até que comecei a me trancar no quarto pra ler. Eu nunca entendi porque minha mãe me perfumava com alfazema, era um cheiro horroroso. Eu era sacaneado no colégio por causa disso. Eu tinha cheiro de normalista. E tem coisa pior do que cheirar a normalista? O motivo disso talvez fosse que minha mãe tinha sido um dia uma normalista. Não só ela, mas todas as minhas tias. E aà eu ia pro quarto me isolar.
No meu isolamento gaiola quarto de uti pátio de presÃdio particular, a vida era muito mais confortável do que no resto do mundo. Estando lá dentro, eu não precisava me relacionar com outras pessoas. Só lia livros e construÃa paredes. E mais paredes, começaram a subir paredes. As paredes não vinham do chão do quarto, eram de outro lugar ou eram dum outro tipo de parede. Um tipo que não se destrói com marreta, e à s vezes nem com trator. E era como se ninguém mais pudesse ultrapassar esse espaço, não cabia mais ninguém. As companhias que um dia me fizeram falta para brincar não me faziam mais falta. Os livros eram meus brinquedos e minhas ferramentas. Ferramentas usadas para construir paredes, ferramentas usadas para fazer transplante de órgão. Nada mais me fazia falta. Ninguém mais me fazia falta. Eu passei a me bastar, e a estar com os outros só para fazer a manutenção de relações que eles sustentavam por mim e por eles. Eu não queria mais ter camaradas. Eu não queria mais ter namoradas. Eu não queria ver pessoas, eu não queria mais sentir cheiro de pessoas.
Meus pais eram incultos, mas tÃnhamos uma biblioteca com mais de 5 mil livros que haviam sido herdados de um tio do meu pai, exilado polÃtico e intelectual, e que foram parar lá em casa porque antes desse tio do meu pai morrer, e ele era como se fosse pai do meu pai, fez meu pai jurar que ia guardar e cuidar da biblioteca dele até o meu pai morrer. Meu pai, meu pai, meu pai. E que se morresse, algum de seus filhos cuidaria dela. Meu pai, como sempre foi cagão e passou a vida inteira na encolha porque tinha medo de castigo divino ou de levar um puxão de pé de algum defunto poderoso, mantinha todos os livros num cômodo da nossa casa que só tÃnhamos acesso se fôssemos para o meu quarto. Meu quarto era afastado da casa, porque como eu nasci por último tiveram que construir mais um quarto. E foi coincidentemente na época que o tio do meu pai morreu. Aà eles construÃram um anexo com mais esses dois cômodos.
Fiquei trancado no quarto até os vinte cinco anos. E do quarto pra biblioteca. Dos dez aos vinte e cinco anos. A famÃlia eu considerava gente estranha. Aliás, principalmente a famÃlia. Minha famÃlia sempre foi estranha. Todos eram como se fossem estranhos. Muito estranhos a mim e à minha realidade. Nunca conseguimos nos entender. E como eles não estavam muito aÃ, me aproveitei disso e banquei o doente. Eu só saÃa do quarto pra comer. E do quarto pra biblioteca e pro banheiro, à s vezes, para fazer as higienes mais urgentes. Parei de estudar na quinta-série. Era mantido como uma samambaia, frondoso, encerrado num xaxim. Regado com livros. Sem amor. Não fazia nenhuma outra coisa na vida além de ler. Era um tipo de profissão. Eu era um leitor profissional. E ao mesmo tempo um amante dos livros, me aproveitava deles. Samambaia regada com livros. Jardim das letras, vida dos infernos. Quimera, arco-Ãris e fantasmas variados. Dos contos de terror à psicanálise. Os quadrinhos, os romances, os clássicos. Bulas de remédio, manuais de aparelhos eletrodomésticos. Tabeliões, dicionários, pesquisas cientÃficas, atestados médicos. Alfabetos, códigos numéricos, histórias da carochinha, poesia. Letras se acumulavam como lixo na minha cabeça. Caçambas e mais caçambas de palavras. Quilos de sinônimos, antônimos. Dentro da minha cabeça letras e muitos sacos de lixo. Letras e imagens distorcidas.
Depois de ter lido 90% da literatura mundial, eu comecei a escrever o meu primeiro conto. E foi o primeiro dia que eu saà de casa depois de tanto tempo. Comecei a escrever freneticamente e só saà de casa porque tinha que comprar caneta e papel. Duas coisas que eu não tinha. Aà então decidi sair de casa. Precisava de caneta e papel. Fui até a papelaria mais próxima da minha casa. Eu já havia esquecido o nome da minha rua e não sabia mais andar no meu bairro. Enquanto a atendente limpava uma estante, eu peguei um caderno de arame de capa mole e duas canetas bic e saÃ. Meu lema e minha sorte. Getting away with murder. Eu passei a roubar papel e caneta freneticamente para dar conta do que eu escrevia e reescrevia: cerca de dois cadernos de uma matéria por dia do mesmo conto. Não tinha dinheiro pra comprar e roubar era muito mais fácil. Um roubo bem feito não gera prejuÃzos. E roubar artigos de papelaria é um tipo de roubo agradável pra quem gosta de escrever. E eu só tinha esse conto, precisava cuidar dele. Revisa-lo, reescreve-lo quantas vezes pudesse para que ficasse impecável. E era somente isso que eu fazia. E foi só isso que eu fiz durante dois anos. Reescrevi o mesmo conto, calculo, umas quatro mil e quatrocentas vezes. Não sei precisamente, mas tenho anotado.
Até o dia que CHEGA, cansei. A ficha caiu, eu estava internado no mesmo conto durante meses da minha vida. Não havia mais nada pra fazer ali. Precisava tomar ar, precisava receber visitas e ligações. Decidi sair pra respirar e fui andando até um sebo perto de casa pra ver o que estava sendo produzido na literatura atual. Ou o que já estava sendo vendido a baixo preço da produção atual. E encontrei o Serafim Ponte Grande, do Oswald de Andrade. Pensei “Hum, interessante, quem será esse rapaz?†Roubei. Levei comigo. “Levei comigo†é mais fraternal. Afinal de contas, a propriedade é uma questão polÃtica. E o que é seu pode ser meu e vice-versa. Possuir é relativo. Abracei Serafim e o ninei até em casa. Chegando lá, passei o dedo em todas as páginas, terminei de ler e voltei para roubar o que agora, eu havia descoberto, tinha sido lançado antes, o Memórias Sentimentais de João Miramar. E roubei todas os Oswalds daquele pulgueiro. Enjoei e comecei a roubar Mário de Andrade. Aos poucos eu roubei toda aquela nova escola, que chamavam de moderna, do sebo mal freqüentado que eu freqüentava. Leitor profissional, ladrão profissional. Roubava livros pra ler e depois os vendia. Roubava em qualquer lugar e vendia em qualquer lugar pra qualquer pessoa por qualquer preço.
Desenhei um ciclo vicioso. Roubava pra ser escritor. Eu odiava trabalhar. Nunca tinha trabalhado na vida. Eu precisava fazer coisas fáceis para me manter. Onde estavam meus familiares? Onde tem comida pra comer nessa casa? As paredes não têm janelas? Cadê as pessoas dessa casa? Tem água? Tem pão? As pessoas eram invisÃveis. Ou era eu que não via mais ninguém? Precisava fazer alguma coisa para me manter vivo. Uma delas era roubar. A outra era escrever. Roubando eu não precisa trabalhar e podia passar quanto tempo quisesse em casa escrevendo. Além dos pequenos furtos para sobrevivência, havia os grandes furtos para sustentar os vÃcios. Descobri a maconha num culto evangélico duma igreja que tinha na esquina da minha rua. Eu entrei lá pra sacar os fiéis e ver a casa de quem ali eu poderia invadir, pra ver quem tinha cara de ter mais eletrodoméstico ou quem tinha cara de ter mais carros ou mais livros. Resultado. A igreja era fachada pruma boca de fumo internacionalmente conhecida. A boca de fumo Jesus. Onde não só vendiam maconha, como cocaÃna, craque, heroÃna, haxixe e yabba, a droga da vez.
Eu era estranho no culto evangélico, isso era fácil perceber, até que um cara fantasiado de pastor veio na minha direção e disse “Vai contribuir com quanto?†E eu, inocente, disse “Vim aceitar Jesusâ€. Dou o que vocês precisarem. Essa era a senha. Falar em Jesus. Me chamaram prum quarto lá atrás e me deram pra experimentar um cigarro de maconha. Aquilo tudo era muito louco. Mas ao mesmo tempo tinha cara de reza. Era um ritual espiritual cheio de gravuras loucas e móveis, cheio de brilho e música. E depois eu fui ver que era um delÃrio meu. Um sonho. Nada disso tinha acontecido. Eu tinha virado maconheiro nem me lembro mais porquê. E essa história da igreja é a que eu costumo contar quando quero tentar falar porque eu comecei a fumar maconha. Mas eu realmente não lembro. Acho que foi um pouco antes de começar minha fase de confinamento. A fase de confinamento começou aos dez, né. É, então acho que foi aos 9 anos. Ser alcoólatra nunca me bastou. Comecei a beber em casa, minha avó tinha mania de molhar minha chupeta na cachaça e botar na minha boca. Aquela velha entendia das coisas. E foi daà ao dia que eu cheirei cocaÃna e vi Jesus. Vi Jesus sentado conversando comigo sobre o centro do universo. Era lá que eu estava. No centro. Só existÃamos eu e Jesus. A cocaÃna mexe com o ego de Jesus.
Jesus era minha identidade e realidade secretas. As únicas que eu tinha. Meu nome é Jesus, muito prazer. Você sente prazer em falar com Jesus? Jesus sente prazer em falar com você. Jesus já estava dando conta de toda a pós-modernidade e comecei a escrever mais. Jesus escrevia mais. E mais e mais. Os contos agora eram inúmeros e eu sentia necessidade de fazer alguma coisa com eles. E fiz. Mandei prum jornal local. Fui publicado com pseudônimo porque eu tinha esquecido meu nome. Meu nome não era Jesus. Quem foi que disse que meu nome era Jesus? Isso é obra da Igreja!, bravejei. Não lembro meu nome. Não sabia onde estava minha certidão de nascimento. Eu não havia tirado identidade. Nem nenhum outro documento. Estava trancado no quarto. Eu simplesmente não existia. Se eu morresse, era como se já estive morto para o estado. Eu era um exilado, um anônimo duas vezes, um fudido. Um loser que agradou tanto que os pedidos de conto foram multiplicados. Jornais, revistas. Todos queriam meus textos e pagar por eles. E pagavam alto. Pagavam caro. Todos queriam textos assinados por Jesus. Eu estava cada vez mais louco. Não sabia o que escrevia, não entendia meus textos e não entendia como as pessoas os entendiam.
Monótono. Eu precisava de emoções. Fiz uma lista de nomes para executar. Comecei a matar pessoas, passarinho eu nunca gostei de matar. Tinha pena. Matei um por um da minha lista. Matar é muito divertido. E minha lista era composta somente de nomes de familiares distantes, o que me obrigava a viajar para mata-los. Mais precisamente tios e primos de segundo grau. A raça mais distante e mais mesquinha. Acho que todas as pessoas deviam ter direito de matar pelo menos uma. É um prazer inenarrável. Eu gostava de arquitetar mortes. Meus mortos eram também meus personagens. Matei todos os personagens que atrapalhavam o fluxo da história que eu queria contar sobre a minha vida. Mudei seus nomes, tirei seus nomes, dei seus nomes a outros. Cortei suas cabeças, os internei no meu quarto junto comigo. Judiei, estraçalhei, mudei os rumos. A vida deles era minha. Eu tinha direito de tirar a vida. E de dar vida. Meu nome é Jesus e eu estraguei todos os finais felizes. Quando eu era criança minha mãe me perfumava com alfazema e me contava histórias de monstros que andavam pelas ruas matando criancinhas que desobedeciam aos pais. Eu era a criança e o monstro, mas queria que ela me amasse. Minha mãe nunca me amou. Eu a amei. E hoje me perfumei com alfazema porque ela vem me visitar. E quando ela chegar vou perfuma-la com alfazema também. E depois mata-la.
Entendesse?
Victor Zalma, ilustrador, cartunista e gente phina como a gente, passou um dos melhores links do ano:
o Fabuloso Gerador de Lero-Lero.
Ah, seu eu ainda tivesse na escola…
Festival do Contemporâneo
Fica ligado.
De 18 a 22 de dezembro no Espaço Oi Futuro, antigo Centro Cultural Telemar, ali no Flamengo.
Basicamente, um festival sobre o que está sendo produzido agora, artisticamente, nos grandes centros. É o que eu entendi, pois o site nem está no ar ainda.
Mas, já sei que a parte de poesia, coordenada pelo Francisco Bosco, vai ter três ambientes:
1) poemas visuais projetados em telão;
2) poetas-performers apresentando-se ao vivo;
3) o VJ Alexandre Aranha (Moleculagem) e o VJ Tatavo farão clipes a partir do trabalho de poetas.
A poetinha que vos fala foi escalada. Mucho gusto. Também teremos Lu Lapan, Sérgio Cohn, Angélica Freitas, Fred Girauta, Botika e outros que não lembro agora.
Mais pra frente dou o serviço completo.
Volkswagen blues
let me present to you
my Volks-Volkswagen blues
ready to carry me away
a long way to reach the moon
::
minha caravela, ê
vai seguindo rumo, ê
minha cara bela, ê
vai seguindo rumo, ê

