Arquivo para Janeiro, 2006

Mão-leve

Fui tentar escrever um texto pra contar que hoje roubaram meu celular no ponto de ônibus da San Martín com a Carlos Góis enquanto eu tentava combinar um cinema. E contar também toda a minha aventura o dia inteiro dentro de uma delegacia shoppingzada do Leblon, registro de ocorrência, 3 horas de espera, depoimento, testemunhas, homens armados com cheiro de tabaco e café… e me toquei que nunca havia escrito a palavra “Meliante”.

Foi FRAGANTE, segundo o Inspetor de Polícia, eu tinha que ir lá no shopping fazer queixa pros canas, de qualquer jeito, ou o meliante, com maioridade completa essa semana e já 4 passagens pela polícia, poderia ser solto, nada aconteceria e talvez ele pudesse me assaltar amanhã de novo. Ou daqui a alguns dias.

E fui, depois de esperar algum tempo pela viatura na seguinte situação: 14 da tarde eu na orla ao lado de três guardas da praia, um salva-vidas, muitos curiosos e os rapazes deitados no chão e algemados. Aqui eles aparecem no plural porque na verdade foram dois. Só que apenas um roubou, o outro só deu guarita, e esse feliz era menor de idade. Logo seria liberado pra dar guarita pra mais um que, quem sabe, talvez me assalte amanhã.

A viatura não chegou nunca, e eles tiveram a bela idéia de ir a pé da orla até a Afrânio. Eu, três guardas e os rapazes desfilando pelas ruas do Leblon. Contei uns 23 olhos arregalados numa distância como daqui prali, 12 minutos.

É a primeira vez que sou assaltada. Tenho sorte, eu sei. Situação mais confortável eu não presenciava desde um arrastão de supermercado há 11 anos. E ainda conseguiram recuperar o celular. Está comigo de novo, descansando, mas em alerta.

SHELTER FROM THE STORM
Dylan, “Blood on the Tracks”, 75

‘Twas in another lifetime, one of toil and blood
When blackness was a virtue and the road was full of mud
I came in from the wilderness, a creature void of form.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

And if I pass this way again, you can rest assured
I’ll always do my best for her, on that I give my word
In a world of steel-eyed death, and men who are fighting to be warm.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Not a word was spoke between us, there was little risk involved
Everything up to that point had been left unresolved.
Try imagining a place where it’s always safe and warm.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

I was burned out from exhaustion, buried in the hail,
Poisoned in the bushes an’ blown out on the trail,
Hunted like a crocodile, ravaged in the corn.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Suddenly I turned around and she was standin’ there
With silver bracelets on her wrists and flowers in her hair.
She walked up to me so gracefully and took my crown of thorns.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Now there’s a wall between us, somethin’ there’s been lost
I took too much for granted, got my signals crossed.
Just to think that it all began on a long-forgotten morn.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Well, the deputy walks on hard nails and the preacher rides a mount
But nothing really matters much, it’s doom alone that counts
And the one-eyed undertaker, he blows a futile horn.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

I’ve heard newborn babies wailin’ like a mournin’ dove
And old men with broken teeth stranded without love.
Do I understand your question, man, is it hopeless and forlorn?
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

In a little hilltop village, they gambled for my clothes
I bargained for salvation an’ they gave me a lethal dose.
I offered up my innocence and got repaid with scorn.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Well, I’m livin’ in a foreign country but I’m bound to cross the line
Beauty walks a razor’s edge, someday I’ll make it mine.
If I could only turn back the clock to when God and her were born.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

SHELTER FROM THE STORM
Dylan, “Blood on the Tracks”, 75

‘Twas in another lifetime, one of toil and blood
When blackness was a virtue and the road was full of mud
I came in from the wilderness, a creature void of form.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

And if I pass this way again, you can rest assured
I’ll always do my best for her, on that I give my word
In a world of steel-eyed death, and men who are fighting to be warm.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Not a word was spoke between us, there was little risk involved
Everything up to that point had been left unresolved.
Try imagining a place where it’s always safe and warm.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

I was burned out from exhaustion, buried in the hail,
Poisoned in the bushes an’ blown out on the trail,
Hunted like a crocodile, ravaged in the corn.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Suddenly I turned around and she was standin’ there
With silver bracelets on her wrists and flowers in her hair.
She walked up to me so gracefully and took my crown of thorns.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Now there’s a wall between us, somethin’ there’s been lost
I took too much for granted, got my signals crossed.
Just to think that it all began on a long-forgotten morn.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Well, the deputy walks on hard nails and the preacher rides a mount
But nothing really matters much, it’s doom alone that counts
And the one-eyed undertaker, he blows a futile horn.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

I’ve heard newborn babies wailin’ like a mournin’ dove
And old men with broken teeth stranded without love.
Do I understand your question, man, is it hopeless and forlorn?
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

In a little hilltop village, they gambled for my clothes
I bargained for salvation an’ they gave me a lethal dose.
I offered up my innocence and got repaid with scorn.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Well, I’m livin’ in a foreign country but I’m bound to cross the line
Beauty walks a razor’s edge, someday I’ll make it mine.
If I could only turn back the clock to when God and her were born.
“Come in,” she said,
“I’ll give you shelter from the storm.”

Amianto

Ando pela casa como se ouvisse passos no telhado. Jogo o olho pro teto, me concentro, faço esforço para ouvir os passos no telhado. Shhh pra silenciar o barulho, mas não tem ninguém em casa, e de repente são mesmo passos no telhado. Do cachorro ou algum gato. Ou eu que ando com mania de perseguida. Nessas horas não sei onde começa meu imaginário e onde terminam os passos no telhado. Para me distrair dos passos no telhado, simulo fome quando estou de cara pra geladeira, mas não é fome, e eu não sei o que é. Espreito uma ameixa seca na segunda prateleira dentro de um tuppeware carcomido nas laterais da tampa pelas microondas do meu Panasonic forno. Ela está sozinha lá dentro, a ameixa, e eu estou sozinha aqui dentro. Carrégona para me fazer companhia no quarto e penso se ela também ouve meus passos no telhado. Pode ser que ouça, e pode ser a minha fome inventada simulando passos no telhado, minha barriga roncando, meu estômago dormindo, ou mesmo, de fato, passos no telhado.

Mensagens de luz pra auto-estima anã

Em tempo de bolas murchas e flutuações, esconda seus ouvidos em headphones. Mas use microfones para falar consigo mesmo. Se alguém ouvir e quiser interagir, esclareça que é um monólogo.

Só medite dentro de elevadores em movimento, caminhe como se estivesse acima do nível do mar. E quando for se sentar prefira gangorras. No alto. Se quiser se confessar, confesse-se a um balde. Meta-o na cabeça, apague a luz e fale até perder o ar.

Não ofereça sorrisos aos vira-latas que se deixam flagrar entre o meio fio e a meia-noite no clarão dos postes luminosos. Cães são platéia, e é importante ignorar a platéia. Deve-se sempre ignorar a platéia ou fingir ignorá-la.

Contra o tédio do diariamente, conte quantos carros, motos, ônibus e caminhões passaram por você. Ou quantas vacas, cavalos, cabras, carroças. Ao final do dia, reflita sobre a poluição nas grandes metrópoles e a perspectiva de vida saudável no planeta Terra.

O sol ilumina o esgoto pelas grades, mas se você levantar as grades, a casa agradece. Dê-se a importâncias, a alegrias e à boa literatura. Para esvaziar a cabeça, use a privada. E para saídas de emergência, as portas laterais.

Urgentilmente

Quarta-feira, dia 18 de janeiro, as pessoas de bem do estado do Rio vão conferir o show do Cidadão Instigado.

E como neste humilde grupo me incluo, tentarei tomar uma condução até o Humaitá para ouvir o “Método Tufo de Experiências” ao vivo.

“Te encontra logo” e “O Tempo”, os hinos-conflitos de amor mais bonitos dos últimos meses, me farão chorar. A “Te encontra logo” em especial.

Sugiro, para os outros cidadãos de bem que forem partilhar do momento, bóias. Vou inundar o Espaço Cultural Sérgio Porto.

E para quem ainda não conhece: Rádio Terra.

CACOCCA

É com orgulho de filha que participo do Coccarelli, um site desenvolvido pela minha amiga Joana para reunir e divulgar as fantastiquebulosas telas de seu pai, o arquiteto e artista plástico Carlos Coccarelli.

Segue o release que andou pela imprensa brasileira na última semana.

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Entrou no ar em janeiro de 2006 o site do arquiteto e artista plástico carioca Carlos Coccarelli. A página enfatiza os nus femininos que Coccarelli pinta desde os anos 70, mas também apresenta seus principais projetos arquitetônicos e uma espirituosa biografia do artista. Mais: uma nova geração de dezesseis jornalistas, escritores, músicos, produtores e artistas gráficos – os interventores – criaram textos, poesias, trilhas sonoras e imagens para 26 das 87 pinturas.

A galeria é dividida por décadas: anos 70, 80, 90 e 00, esta com as produções mais recentes e sujeita a constantes atualizações. As mulheres de Coccarelli vão de divertidas pin-ups de peruca e salto plataforma (1977), passam por grávidas que se despem da própria pele (1982), uma Virgem Maria com um indiozinho de rua (1991), até uma figurante da Igreja da Sagrada Família, de Gaudí (2004) – entre diversas outras personas femininas. Coccarelli dá especial atenção à criação da lingerie e, do fim dos anos 90 para cá, tem aplicado sua habilidade em ilustração de arquitetura para jogar com perspectivas impossíveis e reproduzir edificações européias, famosas ou não.

Entre os projetos arquitetônicos, destacam-se a programação visual do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, projetos para shopping-centers e para edifícios empresariais em Luanda, Angola.

O site foi idealizado pela filha de Coccarelli, que não se conformava em ver as pinturas restritas às paredes da casa do pai, em Santa Teresa, Rio de Janeiro – bairro que abriga o festival anual Santa Teresa de Portas Abertas, quando os diversos artistas locais, de diferentes expressões, expõem suas produções. Coccarelli jamais participou do evento.

O design e a programação ficaram por conta do estúdio paulista Árvore Solar (www.arvoresolar.com). A página é melhor visualizada em 1024 x 768 pixels.

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É de matar, vocês deveriam presenciar. Eu estou lá pregada na parede Interventores com poemas para duas telas que gosto muito.

Queria ver uma exposição do Coccarelli bem logo logo.

Anatomia

Um temporal se aproximava, mas das telhas ainda escorregavam pingos da chuva de ontem: plic plic. E das calças de Joel, moedas, pelos furos dos bolsos que alargava dia-a-dia na longa e tensa caminhada até o colégio. Plic plic, elas se esparramavam no cinza do úmido tapete de pedras paralelepípedas do Catete. Úmidas desde ontem, chumbo e níquel, como o céu que prometia um temporal.

Joel carregava vitrinados na testa e no rosado das bochechas, medos e preocupações comuns aos garotos de sua idade. Mórbidos e cruéis garotos de sua idade. Irado e mau como poucos garotos de sua idade. E sempre dizia Não tenho medo de apanhar! Não tenho medo do perigo!. Perigo com P maiúsculo, que desconhecia. Entre seus grandes riscos enumerava sucinto: repetir de ano e ficar de castigo.

Meu pai não quer mais que eu mate passarinhos cantores. Só posso matar passarinhos mudos. E se ele souber que os mato para comer, insistiria nessa censura besta? Plic, um peteleco na orelha o fazia andar mais rápido. Iam se atrasar para primeira aula: - Anda mais rápido, Joel, vamos perder a primeira aula, pangaré.

Jonas, o irmão mais velho, quem ensinara Joel a torturar passarinhos, mata-los e depois come-los: - Passarinho faz bem pros músculos, dizia ele, desde que Joel era bem pequeno e revelara seu desejo de ser alterofilista. Quanto mais passarinhos você matar e comer, mais forte você ficará, sugeria levianamente.

Você sabe que eu não gosto que me dê peteleco na orelha. Se prosseguir com isso, da próxima vez estouro seu ouvido com o estilingue. Plic. Um silêncio curto entre os dois, e Joel agora na outra calçada, armava o estilingue dentro do bolso, de onde caíam pedras. Grandes e pesadas pedras.

Tuc, uma única pedra. O sangue pingava na blusa branca do uniforme: plic plic. Jonas berrava, enquanto descia correndo a escorregadia rua de paralelepípedos do Catete. Joel ia mais atrás, rindo, pensando que Jonas não podia ouvir seu próprio grito cortar o chumbo do ar do Catete, seu estridente grito, nem os passarinhos cantores.

blueberry

Why must I stay here
Rain comes I’m sitting here
Watching love moving
Away into yesterday.

Vashti Bunyan, autora da música/poema e do desenho. O desenho se chama “blue” e foi pintado em 66. A música se chama “winter is blue” e tá no Just another diamond day, de 70.

Vocês certamente já ouviram falar dela aqui. Ainda recomendo.

A SUMMER SONG
(Chad & Jeremy)

Trees, swaying in the summer breeze,
Showing off their silver leaves
As we walk by.
Soft kisses on a summer’s day,
Laughing all our cares away,
Just you and I.
Sweet, sleepy warmth of summer nights,
Gazing at the distant lights
In the starry sky.

They say that all good things must end some day;
Autumn leaves must fall.
But don’t you know that it hurts me so
To say goodbye to you?
Wish you didn’t have to go,
No, no, no, no.

And when the rain beats against my window pane,
I’ll think of summer days again,
And dream of you,
And dream of you.

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