Arquivo para Julho, 2005

Morre Conceiça

Eu poderia dizer que eu cresci ouvindo Wagner. Mas eu cresci, mesmo, ouvindo Fagner. Fora todos os outros mitos que aos poucos eu vou dividindo com vocês. Minha mãe era apaixonada pelo Fagner, aos 10 anos eu já cantava tudo de cabeça. Na ponta da língua. Sabia tanto quanto tabuada. Eu era boa em tabuada, por incrível que pareça.

“Coração Alado” era um clássico do rock lá em casa.

E aí você visitar um amigo e descobre que ele também cresceu ouvindo aquilo, que gosta e que poderia ser legal vocês partilharem dessa alegria. E assumirem. Quem é o amigo? Bom, não é amigo, é amiga. Uma amiga poeta. Quem? Ah, a Dama. Dama de quem? D’Hollanda. E eu só não vou botar o link pro blog dela aqui porque ela tem medo de ser encontrada por pessoas.

O que eu vim fazer aqui? Ela me disse que a vizinha tinha morrido na noite anterior e que não podia fazer barulho em respeito. Gostei de ouvir isso, e sarcasticamente, vim aqui só pra beber o difunto da véia e ainda chamei mais convivas. A Conceiça do título. Dona Conceição, no cartório.

Morreu, babau. Bebamos chester.

Aí eu canto pra mim:

Não acredito mais
No fogo ingênuo da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança
Nessa estrada
Só quem pode me seguir sou eu

Ah, recentemente eu descobri que o poeta gostava.

aparte

each——————————————other

É o novo som de Salvador

Foi num get together na casa da Nargueela Mooza que despertou-se em mim mais uma vez O Feitiço de Hunky Dory.

Depois de ouvirmos o Out of Season, da Beth Gibbons, um disco lindo mas altos deprê, Nargueela Mooza aliviou a pressão da sala com o Hunky Dory, do Bowie de 71.

Esse redondo me emociona pracas. Posso ficar décadas sem ouvir que o efeito é sempre o mesmo: posse. Possui ouvidos, cabeça, ambiente. Comanda.

Tá na categoria Discos Que Conversam Comigo. Você nunca teve a sensação de que um disco está levando um lero com você? Mas não sabe viver, hein.

Dê ouvidos ao Hunky Dory. Na certa vai virar paixão.

Sossega em mim, David Bowie, não faz estrago.

O Bebê do Tráfico – Pessoa 1

DONA MARIA DO ROSÁRIO GOMES CRESPO ou TEREZINHA era baixa, magra e muito elegante, aparentava ser uma mendiga de berço e de bons hábitos, que pelo desespero dum possível crack na família, circulava trajando saia e blazer negro, saltos altíssimos, cabelo escovado à moda dela e uma bengala pelas ruas próximo ao Cemitério Nossa Senhora do Belém.

Alcoólatra, freqüentadora assídua do bar do Seu Moreno. Fedia à distância da porta do estabelecimento, contava uma história assim que encostava no balcão e pra beber sua cachaça havia um rital: chegava no bar e gritava “Ô, seu MOREEEEEENO, Ô, SEU MOREEEEENO” e isso já significava que ela tinha que ser servida. Pingava um gole pro santo no chão, dizia seu nome inteiro “MEU NOME É MARIA DO ROSÁRIO GOMES CRESPO”, engolia a cana e contorcia a cara até o álcool acabar de queimar.

Após toda essa misançagem, a esguia senhora ajeitava a bolsa que carregava a tiracolo, erguia a cabeça e entoava sempre a mesma música: “TEREZIIIIIIIIIIIINHA DE JESUS, DE UMA QUEDA FOI AO CHÃO, ACUDIRAM TRÊS…”. DONA MARIA DO ROSÁRIO GOMES CRESPO era conhecida como TEREZINHA e por quê será?

Dali era ir à feira e presentear as crianças do bairro com a xepa: tangerinas, bananas e mamões podres. Comiam de lamber os beiços.

nabokov

nos papéis eternizo
minha máquina de escrever
e a vontade de ficar
pra sempre
parada
ao lado da bicicleta
no canto esquerdo da garagem
esperando que algo nos encoraje
a cruzar a folha em branco
do caminho.

Surda-muda, câmbio

Deveria ser proibido pedir informação pra quem está de fone de ouvido. Se você tem a possibilidade de informar-se com que está com os ouvidos desocupados, o faça. É muito desconfortável ter que interromper a música pra dizer que horas são ou pra que lado fica o quê.

O mesmo se aplica aos livros e jornais. Não interrompa quem está lendo. Pergunte pro vizinho.

Uuuuuuuí

As you brush your shoes
And stand before the mirror
And you comb your hair
And grab your coat and hat
And you walk, wet streets
Tryin’ to remember
All the wild breezes
In your mem’ry ever.
And ev’rything looks so complete
When you’re walkin’ out on the street
And the wind catches your feet
And sends you flyin’, cryin’
Oooooooooooooooh-wee!
The wild night is calling.

“wild night”, van morrison, thelma e louise mood.

Pedro Mandagará quer me matar

Em Paratea ganhei três presentes fodas: o Caroço me deu o primeiro livro dele, Cavernas e Concubinas, o Paulo Scott me deu o primeiro livro dele, Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (abaixocitado) e o Pedro Mandagará me deu o primeiro livro de ficção do Jaime Rodrigues, o PHUTATORIUS.

E é aí eu digo: Pedro Mandagará quer me matar. Já aviso de antemão. Desde que o peste me informou de Porto Alegre “Bah, tu tem que ler Phutatorius”, eu tentei achar. Mas não encontrei, deixei anotado no bloco. Jamais poderia imaginar que ele traria o veneno de tão longe pra me entregar em mãos na porta do Bar do Rock- Bambus-Alternativo com a cara mais deslavada do mundo. E ainda por cima com dedicatória.

O livro é foda, mas é um veneno. Já estou na cinqüentegésimasétima página de dor de cabeça. Toda vez que eu leio passo mal. O livro me deixa consternada, deprimida e com vontade de sair correndo pela rua berrando que nem maluco remedinho que foge pelado do hospício e vai fazer festa na rua.

É claro que eu vou ler até o final, mas se eu morrer, vocês já sabem o nome do assassino: Pedro Mandagará. Repetindo: Pedro Mandagará. Veja aqui o retrato-falado do indivíduo.

E sim, dado coincidental, o Puthatorius vai ser relançado pela DBA, na Coleção Risco-Ruído, por onde saiu o livro do Caroço. Essa coleção é bacana. Lê lá pra entender do que se trata.

Mandaguinhaa, eu volto pra puxar sua perninha de noite, seu puto. IÁáááahhhhh-ha-ha-ha-há.

DENTES

Amanhã, dia 22/7, a partir das 19 horas, a Dantes e a Azougue Editorial promovem uma noite experimental com poesia e dub*. Eu acho que não vai chegar a ser dub poetry, vai ser só dub + poetry.

No som-som-som: o Sensorial Sistema de Som, com Lucas Santtana e David Cole.

Nas leituras: Danilo Monteiro, Omar Salomão, Mauro Sta Cecilia, Ericsson Pires e o Paulo Scott, que é amigo da casa e vem deretamente de POA. Ele vai ler os poemas do seu primeiro livro “Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros”.

E se der coragem, eu também vou ler um pueminha. Mas acho que não vai dar não.

Pra quem não sabe, a Dantes agora é no Odeon.

Veraneio II

Capitão, acenderam as lanternas
Vou descer para limpar o casco
Capitão, estás me ouvindo?
Capitão, eu não entendo o teu inglês
Mas é preciso que eu te chame de Capitão
Capitão, não te derrote.

Ninguém nos chama no rádio
Ou seca a chuva de ontem, Capitão
Gostas das minhas previsões?
Me ouves, Capitão?
Repetirei o vocativo em todas as estrofes
pois ainda temos magazines

Não temos terra na vista
Nos restaram poucos prejuízos
Uma tempestade,
Capitão, não estamos sozinhos
como qualquer poema.
E o marujo se repete,
eu sei, o marujo se repete, Capitão.

Ainda há água aqui
Ainda temos comida
É só uma tempestade, Capitão
Temos o pássaro do alto mar,
nos sobram estrelasn
e magazines, capitão, magazines!

Pense por esse lado, Capitão
E água, muita água
É só uma tempestade, capitão,
e lanternas.
Ainda temos magazines!

Por todos os lados,
não vês água, Capitão?,
ainda temos o oceano pela frente!
Acenderam as lanternas, Capitão,
E pra quê duvidar?

Não vejo nada que não seja água
E se ela nos falta tu me iluminas
E devo dizer
Desde que saímos de casa
Que se me iluminas,
Bom dia, Capitão,
Bom dia.

Entradas antigas »