Arquivo para Abril, 2005
Classificados Chapeuzinho Vermelho
Se você achou um casaco vermelho e creme de moletonzinho, fechado e com capuz na sua casa, seu escritório, sua mala ou lata de lixo, por favor, separe num cantinho que é meu. Não precisa nem lavar, só jogar num saco de supermercado, deixar por aà e entrar em contato que eu mando um funcionário dos Correios buscar.
Não faço a mÃnima idéia de onde esteja. Que lástima.
Guia Rex
Vou me mudar e levar os meus cedês do Byrds. Todo dia quando eu te procuro no centro do Rio eu trombo no pique-pega de camelôs e policiais na barriga da Sete de Setembro. Um finge que vai pegar e o outro corre, mas ponha sua mochila pra frente. Levar o Hemingway e a escova de dentes. Eu passo pela Carioca e só quem chama meu nome é o cara da banquinha de jornal que vende filme pornô e faz promoção o dia inteiro, ele diz Ei, princesa. Eu não olho não, mas olha, podia ser comigo. A sede mato no Rei do Mate. Levar a biblioteca da Aliança Francesa da Primeiro de Março, que não é maior que a Presidente Vargas mas tem um livro que eu curto e dá conta do espaço que eu preciso pra mim na tua vida. Uma largura de umas quatro pistas ou uma Linha Vermelha à s 10 da noite. Eu já pensei em ler o Zola. Vou me mudar e levar o estacionamento da Casa do Alemão, o EdifÃcio Central, a Colombo, a The Bakers e o Joelho Juvenal. Jogar tudo do lado da minha cama e fingir que estou sonhando quando estiver vivendo um sábado à noite em outro lugar. Eu não te encontro, mas vou levar as suas fotos pra te mostrar e um resto de chocolate que sobrou da Páscoa. Vou levar a Glória, a primeira maratona do Odeon e Santa Tereza quando eu tinha 17 anos. Levar a Urca e a praia de noite com o John Wesley Harding assobiando no banco de trás. Meus cadernos da alfabetização e o perfume. Faz um frio bom, dá vontade de escrever um livro. Todo mundo quer saber como quando e por quê. Eu não sei nada de jornal, de cinema ou Campeonato Brasileiro. Vou levar os anos sessenta e setenta pra viver os dois mil noutro lugar junto com os meus cedês do Waits e do Rei porque só falta um pra completar a coleção. E o meu Oxford Advanced junto com o Aurelinho de bolso da época que eu escrevia na parte lateral de canetinha e em cada página tinha uma pontinha de tinta que se eu corresse todas as páginas tipo flip book formava meu nome. Uma letra horrorÃvel, mas era pra ninguém roubar. Vou me mudar e levar as Soundtracks que eu tenho em eme pê 3, uns curtas mudos, um clipe do Kinks e a videoteca Caras que eu herdei da minha tia que vive de ensinar os outros a se comportar numa entrevista de emprego. Vou levar meu emprego pra encaixar no meu emprego novo, levar comunidades e conhecidos no Orkut porque não pesa na mala e nem ocupa espaço. Vou levar as tardes no Leme, a Nhecolândia, a pizza brotinho da Veronese e o sebo barato da galeria que vende quadro espelhado. Os amigos eu não vou levar, eles ficam. Eu volto. Vou me mudar e levar tudo pra queimar na Lixeira de Acari.
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Wouldn’t it be niiiiice
No domingo mais surfe róque paaaaaapapapapapá de 2005 eu estava bondeando em cima dos arcos da lapa quando o sol fez esse desenho aà no chão, lá embaixo.
O reflexo do famoso gradeado que agarra os tênis de quem passeia em pé poderia dar uma idéia de pedras no chão. Mas com cuidado dá pra ver que entre os gomos da grade estão os paralelÃpedos e algumas guimbas de cigarro.
No canto superior esquerdo, ele, el bondito de Sunta Terrêça.
E eu kodak a cena, claro.
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Biluzinho Tetéia
O mês das noivas está por dois dias e 2005 segue numa deliciosa e angustiante gincana no quesito você vai se formar precisa se empregar.
(…)
Estou cheia de espaços vazios, necessito ser abraçada por alguém disposto.
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E os juros, hein?
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Continuo achando que “little trip to heaven†é uma música-vÃrus. O meu Winamp concorda.
(…)
Hoje eu cheguei no final do dia pensando ratos, poeira e vias expressas. Será que eu tava sonhando?
Olha, acho que não, noite passada eu sonhei que era escritora. Ora, vejam vocês.
Crise de 29
A situação está se acomplequiçando no quesito moneta para todos e para mim, apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco. Eu versus dinheiro é uma relação de saudade eterna, ou melhor, uma relação de primo de quinto grau que tu não conhece nunca viu não sabe quem é mas sabe que ele existe. E quando encontra, em velório de famÃlia e ele vem te beijar, tu pergunta de onde saiu aquele amor e aquela graça.
Que duram só o enterro, claro. Duranguice maior é saber que os cobres, os merréis, os trocos, os mangos, os pesos e os nÃqueis já chegam no bolso dando meia volta. Bolsos tinham que estampar as setas da reciclagem. A prata não dorme quieta, não é fiel ao dono, e só retorna ao lar pelo esforço do trabalho ou do roubo. Eu ainda não faço parte de nehuma quadrilha, mas não desconsidero ofertas de emprego.
Uma nota que passou na mão de alguém que a segurou com a mão que passou na bunda, no pau, que tirou meleca, que deixou cair no chão que o rato mijou e a barata passou, que deixou cair cerveja choca no bar, com cheiro de cigarro dormido, poluição, angústia, má vontade e a falta do próprio mesmo dinheiro pode ser uma nota que pagará parte do meu salário no final do mês por um serviço qualquer. Não é lúdico?
Minhas épocas de fazer festa com um real. Antigamente a gente confundia criança assim: se tu desse a opção dela escolher entre uma moeda de cinqüenta centavos ou dez de cinco centavos, ela provavelmente escolheria as dez de cinco. Mas hoje parece que a meninada aprende a contar dinheiro antes de aprender as cores, ou antes de saber escrever o nome. Vejo isso pelas crianças da famÃlia. Todas filhas dos meus primos de quinto grau, obviamente, porque primo meu de sangue de mais perto não é idiota pra trocar seis por meia dúzia.
Aà tu pode criar porcos ou comprar um porquinho pra fazer de banco, porque banco é uma praga. Se tu olhar bem eles cobram até taxa de auxÃlio funerário. Fiquesperto, consumidor, volte a depositar suas economias no colchão, e o quente das suas costas vai fazer brotar um pé de dólar, aquela planta úmida que tem parentesco com a samambaia e com o trevo de quatro folhas. Parentesco de quinto grau suponho eu, que não me lembro direito dessa planta, mas sei que ela existe. E a última vez que a vi foi num cemitério no enterro de um parente. Foi um momento de amor e graça.
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Belca
“eu não estou interessando em nenhuma tiuria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais.”
Belchior do álbum “Alucinação” (1976). O legÃtimo rock cearense. Curto paracas.

