Arquivo para Março, 2005
MARAVIJÓSA
Ouvindo o cd “Wanderléa Maravilhosa†(êta nome lindo), de 1972, descobri o seguinte na voz da Ternurinha: uma versão para “Quero Ser Locomotivaâ€, do Jorge Mautner. Essa é uma das faixas do “Para iluminar a cidadeâ€, um Mautner do mesmo ano. Que é sensa, como tudo que o bardo mete a mão.
Não sou fã da Wanderléa, mas esse disco é muito bom. Aliás, vou cantar essa pedra pro Rafa.
obeçervassão: esses e mais outros estão disponÃveis no Souça, usuário brunabeber tudo junto.
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Outono no Rio
Fez frio e choveu educadamente em Sanja. Houve uma onda média de calor depois do almoço que durou umas boas duas horas, e que sumiu sem dar adeus. No fim, restou-nos a brisa.
Enquanto as plantas tomavam um banho no quintal, moletei as pernas e ronquei da metade da tarde até o final da noite. Eu adoro esse climinha Pedra da Gávea, se é que vocês me entendem.
Hehe, bom dia.
Amigos, saudades, seus putos
“Outono no Rio†é uma música do ed motta e do ronaldo bastos que me lembra a Debs, que ta do outro lado do Atlântico. A Debs foi minha professora de inglês quando eu tinha 16 anos, ora vejam vocês, e ficamos amigas. Um dia voltávamos de uma bebedeira na madruga e tocou essa música no carro dela.
Passávamos pelo Aterro do Flamengo, e com a cara mais engraçada da noite, ela bota a mão no meu ombro como se fosse falar algum detalhe da teoria da relatividade e larga: “BEBER, MINHA FILHA, você não sabe como eu adoro essa música!†Dá um pequeno gritinho de euforia e vira a cabeça pra frente de novo. Pro volante.
Eu tava mal de chope, mas eu me lembro como se fosse ontem. Não sei se ainda gosta, mas ela gostou dessa música uns dois anos, bem antes de conhecer Paris, e quando ainda nem pensava em morar tão longe da Guanabara. Isso era bem antes AINDA de conhecer o Vincent (vulgo 25) e casar com ele e ir morar lá. Em ParrÃ. Ai, saudade.
“Me dê a mão
Vai amanhecer
Juntos pela madrugada
Luz, contra-luz
Sobre os Dois Irmãos
Pra mim
Há um lugar para ser feliz
Além de abril em Paris
Outono, outono no Rio
No seu olhar
Já se fez manhã
Vamos logo a Guanabara
Vai se fechar
Vou levar você
Pra mimâ€
Que bonito, que romântico.
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Disfarça e chora
Tem um nêgo de talento aà que me emociona raios pela bela voz e por todo o resto. Quando eu tinha uns 13 anos, minha tia começou a namorar um cara muito louco e 25 anos mais velho que ela que morava em Niterói. Lembro que muita coisa mudou no almoço de domingo na casa da minha avó, até porque o tempo passou a correr na barca e nas longas viagens pela ponte Rio-Nikiti. O LuÃs sabia de tudo, e além de tudo era GURU de um centro espÃrita no rio de janeiro. O cara dava consultas, vestia branco, mas não tinha um papo chato, pelo contrário, sempre sentava do meu lado pra conversar coisas bacanas e surreais. E eu adorava. Foi um dos primeiros a ler meus textos de literatura fantástica. Ele apoiava, claro, ele conversava com ET. Imagina se não ia me incentivar. Aliás, eu tive que ensinar ele a jogar RPG nessa época, e foi uma das minhas piores idéias, o coroa viciou.
Pois bem, teve uma tarde de domingo que ele chegou pra almoçar. Alto pra caralho, barbudo bem feito, levava tudo que precisava numa malinha branca. Ele era limpo e muito bem apessoado. Eu pensava “caralho, esse aà já deve ter andado por todas as saias do rio de janeiroâ€. O cara mandava bem, era vovô, mas tinha um charme. E quando abria a boca, pronto, metia um labiado arrumado. Durante um tempo tive medo de que ele pudesse me conquistar, mas ficou tudo só na amizade mesmo e aà nessa tarde ele chegou e gritou aqui perto da janela “Bruninha, tio LuÃs chegou e trouxe presenteâ€. Eu tinha certeza de que ele não me desapontaria e de forma alguma me traria uma boneca. Corri pra sala da minha avó e esperei que ele saÃsse do quarto.
Era sempre a mesma cerimônia. Ele chegava cheio de doces, de remédios estranhos para todos os males do corpo e da alma e de presentes naturebas. Tomava um banho, “se asseavaâ€, como ele dizia, e botava um calção engraçado. No pé metia aqueles chinelões de vovô que eu sempre achei o máximo e vinha sem camisa com a toalha em forma de U de cabeça pra baixo no pescoço. Antes de me beijar e dizer “que saudade, minha queridaâ€, ele SEMPRE ajeitava os óculos e empinava a sobrancelha. Eu já esperava sempre a mesma regra, o bichinho era metódico de dar nervoso. Corta. Aà ele “sentaà que vou lhe mostrar uma coisaâ€. Pensei “lá vem merda, vai mostrar uma foto dele beijando a Zana ontemâ€. A história da Zana, a Interplanetária, que ele um dia me contou, me deixou sem dormir. A partir desse dia ele cismou que uma das personagens de RPG que eu tinha criado pra jogar com ele era a Zana mas eu não sabia. Alguém conhece a Zana? Depois procurem no Google.
Sentada na poltrona, saca ele de dentro da malinha branca um cedê de capa pebê. Na lateral latejava CARTOLA, nome que eu só conhecia de nome. “Eu acho que você precisa ouvir isso aqui, e se gostar depois eu te trago um outroâ€. O álbum, meus brancos, era o CARTOLA – 1974, o primeiro disco do velho, gravado quando ele já tinha seus sessenta e poucos. Antes que eu começasse a me apressar pra descer e botar no rádio pra ver colé, ele falou “peraÃ, tem mais uma coisaâ€. E joga na minha pouca idade um exemplar bem velhinho de Casa-Grande & Senzala. É óbvio que eu demorei uns bons anos pra folhear, e não cheguei a terminar. Mas ficou guardado como registro e só fui pegar de novo no começo da faculdade pra disciplina de Cultura Brasileira. Depois de tanta informação, desci o pelourinho e fui ouvir o cedê recomendado.
BICHO. Eu fique uns dois anos com esse cedê em casa, ele não tinha me dado, tinha só me emprestado. E eu ouvi tanto aquela pérola, que não só eu decorei todas as letras, como a faxineira daqui de casa na época também. Era meu tempo do grunge, o que não me desqualificava como aspirante a sambista, porque na famÃlia tinha um monte de caboclo. Só tinha um som com cd aqui em casa, ou todo mundo ouvia a merma coisa, ou tampava os ouvidos. Me lembro que eu chegava do colégio e ia botar o que eu considerava o meu cd mais exótico. Ali eu comecei a entender de poesia, provavelmente, e de samba, e de vida. Não tinha como copiar, era só degustar e devolver um dia. Ele e minha tia já tinham terminado e tudo e eu tinha camuflado o Cartola no meu armário até que um dia ele veio visitar a ex-famÃlia e eu tive a sensatez de devolver.
Foi um dos dias mais emocionantes da minha vida, a gente não se via há um tempo e ele sentou comigo pra ouvir o cd. Claro que rolaram longas conversas, eu descobri que os netos dele tinham aprendido a jogar RPG com ele e que ele tinha levado os muleques num encontro de errpegistas na Tijuca. Olha a merda. Mas achei um barato, o LuÃs era mesmo surpreendente. Cheguei adiantando o exemplar do Gilberto Freire e ele obviamente perguntou se eu tinha lido. Disfarcei dizendo que eu tinha amado o Cartola e que sabia cantar tudo que tinha ali. Ele deu play no cd. E foi me explicando faixa a faixa do que se tratava cada música e começou a me contar a história da vida do Cartola detalhadamente. Ou seja, eu passei a ser uma pessoa melhor depois dali. E claro que fui procurar o resto, fiquei amiga Ãntima da vida e da obra (que podia ter sido muito mais numerosa) do cara. É uma das poucas coisas que eu sempre ouço, em diferentes fases. Recorro ao véio Agenor de Oliveira Cartola quando sinto que me falta doçura. E funciona.
Tem uma coisa que sempre me impressionou no Cartola, em todos os aspectos, mas eu nunca soube definir bem. Hoje sei, é a elegância. Pra escrever, pra falar, pra cantar no miúdo. Acho que não conheço ninguém mais elegante não. Cartola foi a belle époque do morro.
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Torniquete
A Neusa é a minha melhor amiga. Já que eu, como todo mundo no mundo, sofro de enxaqueca crônica desde criança. Entretanto, ela já não me serve há um tempo, tomo por tradição. Duas, três, quatro em meias horas espaçadas e uma esperança antiga de que tudo vai ficar bem.
Cortei relações com Dorflex desde muito cedo, pois este me dá sono e não ameniza a dor, ou seja, durmo e acordo com a maldita. Já experimentei todas as fragâncias da farmacologia brasileira e estrangeira, e o único que ainda segura minha onda é o Ormigren, que só rola quando eu roubo da minha mãe.
Pomadinha japonesa ajuda, batatas geladas na cabeça e um quarto escuro idem. Dor de cabeça é um fator cotidiano que consigo conciliar com outras tarefas. Já fiz tratamentos e tal, mas acho que esse lance não cura, é um encosto.
Confesso que quando eu tomo umas cachaça some tudo.
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Véu, grinalda e Randy Newman
O Harry Nilsson era mesmo um gênio. Sim, sou fã. Mas releve, somente ele seria capaz de transformar as músicas do Randy Newman em verdadeiras pérolas VOCAIS como fez em Nilsson sings Newman, de 70.
É uma das mais belas releituras de que já tive notÃcia. Até porque o próprio Newman encontrava-se com sua busunfa ao piano, e Nilsson, com a categoria de sempre, mandava ver nos vocais. LÃrico, absurdo. Praticamente um travesseirinho de berço, é deitar o ouvido e sonhar feito bebê.
E um bebê pode ser a conseqüência de uma ouvidoria emo desse álbum, pois ao ouvi-lo, você sente uma vontade imensa de casar na Igreja com dama, padre e juramento. Soa como uma marcha nupcial das mais sofisticadas. Eu chorei, e você, mesmo que não seja a mãe da noiva, vai chorar também.
A todas as minhas primas que um dia já manifestaram vontade de casar, sempre votei contra “Ave Maria†e outras espécies de midi, sugerindo em substituição, “Becauseâ€, dos Beatles, por motivos de bom gosto, é claro. Entretanto, entrar na Igreja ao som de “Love Storyâ€, última moda nas igrejas de Sanja a partir de hoje, é mais onda ainda. Para as mais descoladas, no mesmo álbum, ainda rola uma “alternate versionâ€.
Portanto, brotinho romântico, converse com o técnico da sua igreja eleita e explique a situação. Tenho certeza que a minha proposta, além de irrecusável, é deveras recompensadora. Você vai experimentar o momento do “foram felizes para sempre” em grande estilo.
O quê, a sua filha ainda não tem idade pra casar? Não tem problema, o álbum é uma valsa, minha senhora, ela pode dançar nos 15 anos.
Larga esse arroz, porra, vamos prestar atenção na letra. E com comentários da mais nova dj-pastora dos matrimônios. Um dia vocês ainda vão ouvir dizer que o que eu faço da vida é botar som em cerimônia de casamento.
Love Story [Randy Newman]
I like your brother
I like your mother
[tudo caô.]
I like you
And you like me too
[sim, acredito]
We’ll get a preacher
I’ll buy a ring
[18 quilates]
We’ll hire a band
With an accordion
A violin
And a tenor who can sing
[brilhante idéia, admito.]
You and me you and me, baby
You and me you and me you and me, baby
You and me you and me you and me, baby
You and me you and me you and me, baby
[esse refrão é o ápice da canção, um dos mais bem conduzidos da atualidade. choro com a voz do Nilsson tão bem aplicada em palavras tão simples, e acaba soando bem mais poético que um "eu e você, você e eu, juntinho" do tim maia, outra voz para qual vou morrer pagando pau]
We’ll have a kid
Or maybe we’ll rent one
He’s got to be straight
[olha a homofobia se manifestando]
We don’t want a bent one
[tá, e se ele for um viadinho? o green peace adverte, respeite as diferenças]
He’ll drink his baby brew
From a big brass cup
[ele só vai mamar na vaca das tetas de ouro, ou nas picas de ouro]
Someday he may be president
If things loosen up
[olha a pressão, aà começa a crescer a criança frustrada, culpada, perdedora, e até assassina.]
You and me you and me, baby
You and me you and me you and me, baby
You and me you and me you and me, baby
You and me you and me you and me, baby
[mais uma vez, bravo!!]
I’ll take the train into the city
Ev’ry mornin’
[o macho sai pra trabalhar]
You may be plain – I think you’re pretty
In the mornin’
[a fêmea será o porto seguro, do tipo que lava, passa, cozinha, chama de amor e é fiel. um tipo de mulher que, além de tudo, ainda acorda bonita e sem mau hálito, esse papo de novela]
And some nights we’ll go out dancin’
If I’m not too tired
[em recompensa por você ser uma boa garota, se eu não estiver muito cansado, eu vou levar você pra passear ou pra dançar, ta, neném? Te compro churros, quer?]
Some nights we’ll sit romancin’
Watching the late show by the fire
[e se ele estiver cansado, claro, vai rolar apenas um sexo amigo depois da novela e nada mais]
When our kids are grown
With kids of their own
[imagina os filhos dos filhos desse casal? putaquiospariu, não quero nem pensar. chama aà aquele cara mala...que mané Faustão, o Freud, porra]
They’ll send us away
To a little home in florida
[Um asilo, claro, o que é bastante plausÃvel]
We’ll play checkers all day
Until we pass away
[única iniciativa interessante da música: esperar a morte jogando dama]
THE END
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