Arquivo para Novembro, 2004
Writer’s Writer’s Writer
Interviewer: How much do you usually write before you begin rewriting?
Henry Green: The first twenty pages over and over again – because in my idea you have to get everything into them. So as I go along and the book develops, I have to go back to that beginning again and again. Otherwise, I rewrite only when I read where I’ve got to in the book and I find something so bad I can’t go on till I’ve put it right.
Henry Green – Paris Review, 1958.
Deus cose pra fora
Dormir após reler antigos livros de versos que havia aposentado é faltar com o pouco sono que sinto. Ontem de madrugada eu dei umas dedadas nas lombadas dispostas na estante pra misturar uns Cummings com Millôr, uns Yeats com Leminski e por último UM Neruda com Pound. Eu não gosto de Neruda, desandou meu coquetel. Tonta, quando levei na mão a testa, meu gesto conseqüentizou em indicativo: tardava. Joguei-me na cama ao estilo Cleópatra dada por adormecida.
Pesadeladeei-me. Acordei as três primeiras horas da manhã de segunda com um pulo daqueles de catucada levanta diabo: suadeira de febre tremedeira de maluco, faltei por pouco bater os queixos, comer os quadrados das mãos e o topo dos dedos até o sabugo da unha. Fiquei pelo menos meia hora parada tentando boletinizar os ocorridos. Não conseguida, levantei pra cumprir uns compromissos inadiabaláveis de final de semestre.
A uruca era tão visÃvel que até o motorista do ônibus que pego todo dia no mesmo horário quando saio caxiasmente na hora que deveria sair não quis parar pra mim. Bicho, eu não sou o Nelson Ned, eu tenho 1,76, meu braço é longo e eu moro aqui há dez anos e ele me viu aquele filho da puta e ponto final. Verifica-se por todos que não sou um elemento possivelmente delitoso, e a minha cara era de mau amigo porque convenhamos.
Já possuidamente puta e no começo da tarde, una persona que estimo deveras e com a qual não trocava um vocábulo há exato um meio de ano me aparece. Meu côco se encheu de folguedos e eu ri como eu ria. Pensar que ontem antes do terror poético eu calculei que tal jamais poderia acontecer me choca a coincidência, e seu contar neinheu acredito.
Esqueçam, milagres só acontecem comigo.
Minha avó é uma tevê aberta
A velha doce de moleira acinzentada passa o dia me vendendo pelÃculas protetoras para carros e ceras removedoras de arranhões na lataria, incrÃveis géis que proporcionam cabelo aos carecas, aparelhos de pressão abdominal anti-pança, etiquetas de colar no corpo inteiro para reduzir gordura, etiquetas para braço que fariam meu pai largar o cigarro, lâminas cortadoras de legumes e vegetais, cremes exterminadores de celulite e estria, coletâneas de música country, romântica, roque, pop e sertanejo por APENAS 3 parcelas de 65,00 no Cartão Visa e se eu ligar agora eu ganho dois cedes de clássicos do cinema. Ela comprova, sabe deus como, que tudo aquilo funciona.
Minha avó arregala os olhões e franze a testa para me vender todo o noticiário do crime e do horror: mortes, crianças abandonadas e maltratadas pelos pais no interior do Sergipe, estupros, apreensão de carregamento de eletrodomésticos roubados no ABC paulista, maconha prensada, cocaÃna e não sei quantos mil comprimidos de ecstasy no aeroporto Tom Jobim, é filho que mata pai e isso não se faz que Deus castiga, minha avó me vende o Arafat doente e depois morto, as novas medidas provisórias, uma pessoa com duas cabeças no interior do Pará, uma plantação de feijão contaminada, um vÃrus novo, um paÃs subterrâneo e uma invasão de ETs em Minas, a seca do nordeste matou mais 40 hoje, a ONU, uma doação ao Criança Esperança e cada sexta-feira um segredo de como se evitar o câncer.
Minha avó se encontra com a Hebe à s segundas-feiras e com o Gugu aos Domingos enquanto toma seu leite com torradas. Ela ainda discute o caso do Rafael do Polegar, acompanha longas reportagens sobre os Mamonas Assassinas no aniversário do acidente, sobre o Ayrton Senna e agora sobre o Cazuza. Acompanha a vida dos personagens das novelas, os desenrolares das tramas nacionais e mexicanas e a volta por cima de cada injustiçado. Se eu deixar, ela discute o caráter de cada um deles comigo, defende condutas e o caralho a quatro e olha essa boca suja, minina. Durante a tarde, ela acumula novas receitas no caderno, me pede para entrar no site pra pegar o “modo de preparo†e inventa moda na cozinha para toda a famÃlia.
Ela sacode o corpo pra frente se abanando com um leque do Carnaval 89 e me recomenda comer pouco para viver mais, esquentar o pão na chapa com margarina de vegetais segundo o Clodovil que fica divino, me deixa a par de todo o conhecimento empÃrico do Leão Lobo sobre a vida alheia, me diz que Angélica casou e que está grávida e Como assim você não sabia?, me diz que todo mundo tem que fazer um esporte, me recomenda pó de casca de ovo contra artrite, artrose e bico de papagaio, me orienta contra as balas perdidas que matam mais que atropelamento na Grande São Paulo sendo que a gente mora no Rio, me aconselha a entregar o dinheiro em assaltos, desliga a televisão em filmes de terror e suspense porque isso é muito bruto, minha filha, depois não sabem porque essas crianças andam tão violentas.
Minha avó, zapeando no sofá, VIVE todos os dramas do mundo e PRECISA compartilhar.
Fauna Erudita
Ao Jorge de Lima
ME AMA UMA GALINHA
me acorda quando pego no sono
e da vôos rasos no meu juÃzo.
ME AMA UMA CABRA
me geme quando não quero nada
e arrasta o queixo pro meu lado querendo saber
- cumé?
ME AMA UMA LACRAIA
me queima os olhos se distraio
e ainda chama o médico.
ME AMA UMA JIBÓIA
me enrola nos braços
e me come vivo.
Cucurucucurriculum, paloma
Para nós, Ele tem indicado o trabalho de permanente desemprego.
Afinal, se Ele quisesse que nós trabalhássemos, não teria criado esse vinho.
Como o estômago cheio disso, Doutor, Você se apressaria em embrenhar-se na economia?
Jalaloddin Rumi – poeta santo da Pérsia, um dos mais lidos e traduzidos. (1207 – 1273)
***
Em tempo: EU ESTOU DESEMPREGADA. Freelas, trampos, emprego e estágio na área de jornalismo, redação publicitária, webwritting, pesquisa de conteúdo, revisão, tradução ou qualquer coisa que o valha na área de TEXTO. Até MARKETING eu topo.
Como vocês podem perceber, é um cardápio variado. Ainda não lavo nem passo pra fora, mas daqui a um tempo pode ser que sim.
:: brunabeber@gmail.com ::
Pra viagem
- Eu aproveito a vida mermo, tenho que tê meu lazê.
- Risos encabulados.
- É, Magal, chega dia de sexta-feira, eu mais a Tica saimo daqui e vamo bebê, a gente passa as noite na rua.
- I é? Que cêis faiz?
- A gente vai pa padaria e bebe até as cuato e meia da manhã. Bebe, come uns petisco e fica cantano umas música.
- É mermo, tem que aproveitar, depois a gente morre e não leva nada.
- Ih, não quero nem sabê, meu lazê é meu lazê…
- Eu cuase nunca saio…
- Que isso, mulé?! Tu conhece a Suruba?
- Hein? Suruba? Onde que fica a suruba?
- Suruba, Magal, suruba, cachuêra…
- Ah tá, sei não
- É ali pras banda de Tinguá, Três Rio, não sei pronde fica direito não, mas é bom que chega.
- É mermo, Pêdo?
- É.
- Tu tem que ir, Magal. Passá um dia lá é chuchu
- Iéé?
- Ô…
- Mas tem que a água é funda, né?
- Oxi, eu tenho medo.
- Morre lá não escapa nem a alma, é quinem no Pão de Açúcar, aquele fii pendurado. Vô nada, aquilo deixa nós caÃ, já viu? Deus que me enlivre. Mim deixa eu quieta no meu cantin mermo.
- Tem que tê medo não, Magal, é só se assegurá. Por um exemplo, qué perigoso é perigoso, eu memo cuase caà afogado na Suruba.
- Virge Maria SantÃssa, Pêdo de Deus! Que tu fez, homi?
- Eu enfui caminhano, chego num ponto, Magal, meus pé sumiro tudo, eu só sentia meu corpo boiano e não conseguia ir contra as correnteza
- E cachuêra tem correnteza desde quano, Pêdo?
- Tem, Magal, essa tem. Minha sorte foi que a Tica gritou os dois embrulho que tava na borda pra me salvá…
Embrulho: do que percebi pelos gestos do Pedro, um dos camelôs mais agitados da Central do Brasil, ele se referia a rapazes musculosos, fortes. Magal é Margarida, que tem uma barraca ao lado da dele e de Tica, sua esposa. Agora, o porquê de embrulho: para explicar, ele apontava pros próprios bÃceps e trÃceps como se fosse um compartimento e aà eu pensei: Bom, todo cara forte quando anda fica com os braços meio abertos, já repararam? PoderÃamos dizer que é como se ele carregasse dois embrulhos, um debaixo de cada braço. Genial.
Mato à cobra e mostro o pulo
Michô. Senhorita Bruiú Nunes, DEVO-TE-LHE um bico nas canela por ter-me deixado a ver navios sem tomzé nessa tarde chovenãochove do rio de janeiro. Eu tava tão empolada de emoção pa ver meu bom, que mal dormi das 3 da manhana aos médio dia. Por pouco até palpito meus bofe pela boca enquanto roncava. Não disculpo o fato sórdido de tu ter desistido de nos empurrar porta adentro da ECO-CO-co-co pra matar tua mãe e ir ao cinema ver aquele filme carioca cheio de violênça. Sinsseramente, me cortô as força. Que decepssão.
Mas acabô que uma outra amiga de moi me ligou no eme esse ene assin que eu acordei e assim que tu ainda dormia pra mim chamá pra DISCOtir papo, rir e ser feliz por algumas hora sem vanguarda. E caiu como um LÚVULA. Foi o convite ihdeal para quem como eu estava com a vida decepcionada e sem PERESPECTIVA, semi-pronta pa sair pralgun lugare e bundiar. Nós marcamo de esbarrá nossas pança no Belo Monte do Framengo pa deixar nossas tristeza e reclamação apagá no lume. E por lá fizemo a Brahma descer esférica pelas mão dumas dez caldereta cada uma, vários pastéu com pimenta, bolinhos de umas massas com frutos dum pé de mar, quêiju, tumate, oréganos, muita água pingãno nos braço até os cutuvelo e quépirinha até as vinte e uma hora contada no relógio da parede.
O Belo Monte tava que como sempre aquela FERVURA de gente come sai entra mija caga e vai feder as nareba de nós que távamos numa mesa de cara pa porta. Nós não éramo as moça do papel higiênico de parada de estrada, mas dava pa vê a perdição de linha dum ânguilo entupido de loira, areia e bosta visual. Um cheiro de PELOURINHO inenarrável de falar circulava no recinto de macacão de exercÃcio fÃsico, porta-água na cintura e suvacos levantados para explanar pra nóstodos sua carismática essência francesa e fraganrosa. Deu que mudamo de mesa e desistimo da vida de moça do papel higiênico de parada de estrada que nem chegamo a tê pá esperá mais cuatro amigo que tavo pá chegá SÓBREOS e vindos da trabalho, EXCRUSIVES: Tristão do seu AtaÃde, Clodin Clodan e uma amiga que ficou nossa tamém e Euclides, o que não dá cunha. Antes disso, entre nós duas, nossos soluço e nossa bexiga cheia ruim de desvaziá estavam dois gringo amancebado tirano umas casca da nossa mesa e se reindo-se a baldes das nossa peçoa. Cagamo pa eles.
Purque nas realidade, os motivo tinha de ser de festa e adespedida confortável da amiga que vai pra São Sãos Paulo amanhã passá uns dia e participá duns seuviço literários dando trabalho sobre Crarice e Rosa e aproveitá pá ganhá tutu pa comprá cama, fogão e uns pano de bunda pra sua casa nova. Eu disse pá ela que cuando ela voltá embolsada e com tudo nos conforme, eu vô dá umas panelinha pa ela brincá de cumidinha no seu dako rejuvenescido e uma colcha vermelha de fios doirados bordada a 15 mão com calos de tecedoras nordestinas exploradas que fazem muito gosto de seu trabalho. Vai ficá um luxos e eu vou visitá ela com broa e suco de groselha no seu opem rause coming soon.
Só fautô a quéte, nossa amiga compromisseira, pensadora e desenheira de roupa, que por ter esborneado na noite anterior na casa de seu careca namorado, não apareceu e deixou nós tudo preocupado de roer as unha até os sabugo dos nosso, deixo vê…, 60 DEDO DA MÃO, afinal com nós era mais quatro amigo, se isquecêro? Liguemo toda a tarde pra ella, mandei mensáGIM via cebular e eja nada. Quando deu 22 e 25 da noite, liguei mais duas X (vêis) e élha nádiga. To priocupada que só pode ter aconticido algum pobrema grave. Num apelo mais pra mim tentá comunicá, se há de sê morte, for, e se não há, as coisa vão de se arresouvê por si mesmo elas só.
Resutado: sozinha sem tomzé, agora são 1/2A noite e 46 no relógio do meu computadô e eu já estô no lardocelar felizfeliz e ÉBREA como un gambá. Meo padre ta lá enssima ouvino uns róque bóbe dylan robado de meu HD via piratiação de música na Internet e acompanhano as bateria calminha batendo seus pézinho chei de ruga com MUITA FÔSSA no assoalho do nosso terraço com churrasqueira e vista pruma PIS-cina TONNI. Posso ouvir os pléque-pléque doer na minha molêra encachassada enquanto escrevo esta bonita mensagem de sabedoria, amor e comunhão. Euein, Jesuis ama AGENTE. Paremo de sofrê.
Um abrasso,
AparÃcio Nunca Vi
O de proveta
Vocês acharam que ia ficar por ISSO mesmo? Nem só de Cole Porter sobrevive alguém que se propõe a COLUNAR num site de cinema.
O tema dessa quinzena é “Cinema e VÃdeo na Internet”, e por culpa desse motivo maroto enviei um txt.doc sobre o The Hire. Manjam?
Bastante informativo e pouco papagaiado: vejam AQUI se funciona.
Pega no meu CheZ Guevara
Pindorama não foi coincidência, ontem dia dezenove do mês de novembro de doismile4, eu acordei e vesti uma blusa antiga em homenagem a dois amigos, mas principalmente ao patriarca, seu Waldemar Alexandrino de Lima, pai do meu pai e descendente dos XIV Alexandrinos, meio poeta e meio funcionário público como todo alagoano arretado acha que deve ser.
A camisa AMARELA GEMA DE OVOS FRESCOS data de 99, 2000 e tem as seguintes inscrições: FOLCLORE BRASILEIRO – BANDA DE PÃFANOS DE CARUARU e aqueles desenhos dos bonequinhos de barro das ParaÃbas. Eu fico bela e irreconhecÃvel nesse pedaço de pano e daria um CLIQUE KODAK pra ser fotografada DEVIDAMENTE FOLCLORIZADA, do jeito que eu presumo e IDEALIZO.
Tu sabes, bom selvagem, que me acusam de ex-FOLCLORISTA. Mas é que tive uma fase tropicalista e pós-tropicalista fortÃssima, me embrenhei em manifestos, movimentos, pães et circenses, fui poeira de palanque, curti Santa Tereza como a palma do meu umbigo e tenho um pé em raÃzes, do blues à s batatas. Formei meus escrúpulos com boas doses da grandiosa literatura nordestina, desde o PRIMO até os confins mais contemporâneos do Tom Zé, que me acompanha.
E o que eu não imaginava é que eu fosse ver meu Pindorama Boy HOJE aqui no Rio, fazendo chôu ao lado do SOLAR DAS FOSSAS, um reduto tão meu passado quanto meu emprego (sim, eu estou desempregada, saà da produtora.) ALIGRIA docemente BÃRBARA!!
São São Paulo é o caralho, no Rio de Janeiro mesmo, à s 15h, no campus da ECO (Escola de Comunicação da UFRJ), Praia Colorada, do lado do Pinel, Pindorama, Ilha de BaÃa de Santa Cruz de Vera Cruz, Brasil.
Os companheiros ainda sabem o caminho? Estarei lá para dar um Hasta La Vista logo na entrada.
