matarazzo
maysa falando do nosso assunto preferido – o uÃsq – mentira, o amor.
em seguida ela canta uma das músicas mais fodas do fernando lobo, chuvas de verão, que tá no Ando só numa multidão de amores (1970)
aliás, o usuário bossabrasileira do seu tube tem tudo sobre a mama.
As irmãs passionistas
A morte de Adriane, um véu. Demorou a nos chegar o anúncio – domingo de tarde, todos no quintal – mas já esperávamos. Um véu no dia e temos a tarde, outro véu na tarde para ser noite. É assim que se explica o tempo por aqui, o escuro e o claro, assim começamos a conhecer as cores. O que fazÃamos há vinte anos no mesmo quintal era esperar o terceiro véu, aquele que cairia na noite e deixaria tudo preto para sempre: a morte. Esperávamos, mas não querÃamos estar vivas para ver sua chegada – e era por isso que sempre sentávamos juntas todas as tardes, de costas para a casa e de frente para o jardim, olhos fechados simulando descanso, a arquibancada do silêncio.
TÃnhamos somente uns aos outros, todo esse tempo, mesmo quintal. Não nos ouvÃamos porque raramente falávamos. Apenas bom dia, tarde e noite, desculpa, licença, por favor, obrigada. Nos foi ensinado guardar a voz, não dividi-la. Bocas caladas ouvidos mudos. E fechados dois dos três portões principais, apenas vÃamos. E já nos parecia muito espectar a vida. Mudava em dezembro: – Feliz Natal. E quatro metros para assegurar a distância do que dá pro que recebe o Feliz Natal. As distâncias se encurtam quando nos distraÃmos, aprendi com a única longa rodovia por onde passei. Olhar pra frente, pro seu suposto e iminente fim, somente para ver o que está acontecendo e não o que pode ou vai ou deveria acontecer.
“Onde vai, Branca? Rezar. Pra quem? Pros pássaros que tão indo lá trazer a chuva. Faz calor demais aqui e uma única vez a ouvi falar de Deus, mas nunca a vi praticar a bondade.” Eu julgava Branca em silêncio, e sem olhá-la tentava responder as perguntas que a imaginava fazendo para si mesma. Minha cabeça atarraxada ao pescoço, meus olhos estáticos fingiam não ver nada, eu estava imóvel, e imóveis todas as minhas emoções. Cheguei a achar que estava pensando sobre mim mesma, mas não, era sobre Branca, que atravessava a sala nua com a BÃblia na mão sem se dar conta de que estava nua, conversando com seus segredos, contando seus dias, mastigando os próprios dentes. O som que vinha era o som que vem quando mastigamos grãos crus de arroz. Seus lábios também tremiam, ela sussurrava seus medos, e observando-a eu conseguia calar os meus.
Perdi as contas de quantos anos temos. Sei que se passaram mais de vinte porque Lucas, filho do Seu Suzano, a única criança da vizinhança há vinte anos, já arranjou barba, trabalho e filho. Então posso dizer com segurança que há vinte anos vivemos nesta casa sem relógio e sem álbum de retratos. A fotografia de nossos pais, bem sérios (ele brabo, ela com olhar de carinho), pendurada na parede da sala, caiu com o vento forte da última chuva há mais de vinte anos e no chão ficou. Ninguém se encorajou a juntar o vidro estilhaçado, ele está lá até hoje, mas Adriane mais moça forrava um lençol branco em cima dos cacos e deitava em cima. Ela dizia que queria sentir com mamãe as dores do parto e com papai as dores da partida. Nunca a repreendemos.
Era dezembro: – Feliz Natal, Adriane está morta. Oito, doze, dezesseis metros. A distância se multiplicava nos poros do véu, entardecia, anoitecia. A palavra longe em cada átomo do corpo de Adriane, sua matéria calada, carne frita lentamente, ao longo dos anos, pelo sol da manhã. Não ouvimos nem vimos sua morte, estávamos de costas para a casa e de frente para o jardim, enfileiradas e mortas.
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Conto escrito para a exposição Impressões de um lugar, de Alexandre Sequeira.
Impressões de um lugar
A exposição do Alexandre, ao vivo, é ainda mais emocionante do que eu já havia achado nas fotos, e a abertura foi um evento de respeito no meio do sábado, quase uma superprodução.
Muitos amigos e muita gente interessada no nosso trabalho. O Itaú nos recebeu muito bem, nunca tinha visto profissionalismo na arte. O material gráfico da exposição é muito bonito, eu via as pessoas comentando e querendo levar pra casa mais de um programa, por exemplo.
Para minha alegria, o conto está impresso nos tapumes. Quem chega pra ver pode ler. E foi tão difÃcil lê-lo ao vivo, em meio aos lençóis e tão perto das pessoas, foi uma leitura estremecida. A mais difÃcil e a que eu mais gostei de fazer até hoje.
SaÃram várias matérias por aÃ, mas não consegui clippar ainda.
O Portal Literal fez uma e publicou o conto em primeira mão na web.
A exposição fica lá até o dia 25 de novembro.
sempre tenho vontade de ouvir
August 20, 2006 10:44AM
a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente
areia e mais areia construindo no sangue altÃssimas paredes de nada
al berto em “doze moradas de silêncio” . lisboa, 1979 .
leandro de paula bagatela
zerinho ou um
seguem essas linhas
pro que se desfez
e para todo achismo
uma certeza
no fundo, queremos
recuperar a costura.
Taquipariu
HORÃRIO DA ÚLTIMA VEZ
paciência
até as coisas virarem
pro céu
na imposição
que espreme e solta
meus pulmões
neste farejar sem retorno
sobre a luz dos dias
e de quando estivestes aqui
deixando meu caminho
cumprir entre as rocas
guardando provas do que li
deitando-me paredes
e mil cortinas novas
para o teu semblante
colorindo luvas
na sujeira que terminou
nos dedos
(movendo óleo de sabão)
nos tocos de lápis
que ficarão dormindo
na barriga quase branca
do livro
.
Atol das Roccas e suas irmãs
Chegalá, amizade.
20 de outubro, amanhã sábado de friozinho, 12h, coquetel de abertura com leitura.
Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149 – estação Brigadeiro do metrô
Fones: 11. 2168-1776/1777


